Em 2009, as mulheres despejaram na economia mundial cerca de 12 trilhões de dólares - mais do que a soma das economias do celebrado Bric. No Brasil, elas foram responsáveis por gastar - sozinhas - quase 800 bilhões de reais em produtos e serviços. Como tirar proveito desse enorme mercado.
Esqueça as reivindicações feministas, a guerra dos sexos, as políticas afirmativas de gênero. Pense apenas no mercado, no potencial de consumo e, em última análise, em como essa inquestionável ascensão feminina muda a economia e o jeito como as empresas olham o mercado. Até hoje, as mulheres eram vistas basicamente como "influenciadoras" das decisões de compra - sobretudo como donas de casa que ajudam a administrar o orçamento familiar. Dos 18,4 trilhões de dólares destinados ao consumo mundial anualmente, estima-se que 12 trilhões, quantia equivalente ao PIB americano, sejam de alguma maneira determinados pelas mulheres. "O que está em discussão, agora, não é tanto sua capacidade de convencimento", diz Sayre. "Mas quanto dinheiro elas podem ganhar e injetar na economia." A julgar pelo desempenho dos últimos anos, essa injeção será fortíssima. Num mundo ainda dominado pelos homens, estes concentram 70% dos postos de comando nas maiores companhias do planeta (segundo dados de uma pesquisa divulgada há pouco mais de um ano pela Universidade Harvard).
No que elas gastam?
As brasileiras consumiram quase 800 bilhões de reais em 2009. Veja os principais setores beneficiados... (em bilhões de reais):

Os segmentos de mercado que mais deixam as mulheres insatisfeitas no Brasil e por quê:

1 - Como as mulheres utilizam mais serviços médicos que os homens, a demora no atendimento e o não cumprimento de horários, sobretudo no caso de consultas, fazem com que elas percam mais tempo fora do trabalho.
2 - As academias oferecem longos programas de exercícios voltados para a garantia de um corpo perfeito - mas se esquecem de que as mulheres querem ganhar tempo. O ideal, para elas, seria que a academia contasse com espaços para crianças ou serviços de beleza, como manicure.
3 - Segundo elas, ao falar sobre investimentos, os bancos utilizam uma linguagem complicada demais. Poucas mulheres se interessam por índices como taxa de retorno - a maioria está mais preocupada em garantir o futuro dos filhos.
De acordo com a pesquisa do BCG, a massa salarial feminina mundial tem crescido em média 8% ao ano desde 2003 - ante um aumento de 5,8% nos ganhos dos homens. Com isso, a previsão é que a quantia controlada pelas mulheres e destinada ao consumo em todo o mundo deverá ultrapassar 20 trilhões de dólares em 2015, ante os 12 trilhões atuais. Para efeito de comparação: a massa salarial global masculina é, hoje, de 23,4 trilhões de dólares. Um estudo realizado pelo instituto de pesquisa brasileiro Sophia Mind, do site Bolsa de Mulher, ao qual EXAME teve acesso com exclusividade, dá uma ideia do potencial do mercado formado por mulheres no Brasil. (Note que não falamos mais de mercado feminino, já que o consumo delas vai muito além dos óbvios batom, perfume e bolsa.) Dos quase 2 trilhões de reais destinados ao consumo em 2009, as mulheres responderam por 1,3 trilhão - desses, 800 bilhões vieram na forma de consumo direto e o restante contou com a influência delas. Mulheres já são grande parte dos mercados de carros, apartamentos, educação e saúde, para ficar em apenas alguns exemplos. "O poder de compra dessas consumidoras será, sem dúvida, um dos grandes caminhos para o crescimento do mercado brasileiro", diz Andiara Petterle, presidente do site Bolsa de Mulher e coordenadora da pesquisa.
...e a participação feminina no consumo total desses produtos e serviços:

Os números mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) comprovam o avanço das mulheres por aqui. De 2001 a 2008 a massa salarial feminina (a soma do salário de todas as mulheres incluídas no mercado de trabalho formal) aumentou 42,3%, ao passo que a masculina cresceu 25,9%. Hoje, o salário de uma profissional equivale a 71% do de um homem que desempenha a mesma função - em 1993, essa relação não passava de 32%. "Ainda há muito espaço para crescer, não só na quantidade de mulheres que podem entrar no mercado de trabalho como também no processo de equalização da renda", diz Andiara. "E isso se vê mais facilmente nos países emergentes. No mundo desenvolvido, grande parte das mulheres já está inserida no mercado de trabalho, ganhando salários muito próximos aos de seus pares masculinos."
Mais dinheiro no bolso
A soma total do salário das trabalhadoras brasileiras ainda é menor que a dos homens, mas a diferença vem diminuindo (em bilhões de reais):

A recente ascensão das mulheres no mercado de consumo tem contribuído para a quebra de alguns estereótipos. O principal deles é o de que elas só gastam em roupas, acessórios e cosméticos, deixando despesas mais "sérias", como a aquisição do carro ou a reforma da casa, a cargo dos homens. Ok. As mulheres continuam - e continuarão por toda a eternidade - loucas por sapatos, acessórios, roupas e maquiagem. Mas a riqueza gerada por elas, hoje, se distribui de forma muito mais sofisticada. Boa parte da renda vai para setores como educação dos filhos e a própria educação, alimentação, telefonia e planos de saúde.
A força das consumidoras
A participação feminina(1) no consumo de algumas das maiores economias do planeta:

No Brasil, algumas empresas começam a despertar para a importância de conquistar o mercado formado por mulheres com renda. Em 2007, depois de realizar centenas de pesquisas com seus vendedores, os executivos da Cyrela, segunda maior incorporadora do país, perceberam que seus projetos negligenciavam essas possíveis consumidoras. "Percebemos que as mulheres estavam extrapolando o papel clássico de mera aprovadora no momento da compra do imóvel", diz Rosane Ferreira, diretora de incorporação da Cyrela. "Em muitos casos, elas eram as compradoras." Para conquistá-las, a companhia passou a incluir nos novos imóveis centros de beleza, salas de ginástica e pilates e áreas de lazer para os filhos. Atualmente, as mulheres são responsáveis por 40% das vendas da Cyrela no país - ante 30% registrados três anos atrás.
Num cenário em que poucas companhias estão de fato preparadas para atender aos desejos das mulheres, a varejista de material de construção C&C é uma exceção. Em setembro do ano passado, a empresa criou uma diretoria específica para entender e atender essa parcela do mercado. Ao departamento, batizado de diretoria do cliente feminino, cabe pensar no desenvolvimento de novos produtos e avaliar quão satisfeitas as consumidoras estão. Um dos primeiros movimentos encabeçados por essa nova diretoria é a remodelação das lojas. No início deste ano, quatro das 40 unidades espalhadas entre São Paulo e Rio de Janeiro passaram por uma repaginação total - a maior mudança diz respeito à forma como os produtos são distribuídos, agora imitando os ambientes de uma casa, como fazem as lojas de decoração Etna e Tok Stok. Além disso, a C&C incluiu em seu portfólio itens da linha branca, algo até então impensável num setor habituado a vender azulejos e parafusos. "Em nossas pesquisas, percebemos que o maior sonho das mulheres era ganhar tempo", afirma Miriam Gemignani, diretora de cliente feminino da C&C. Hoje, 55% da clientela da empresa é formada por mulheres. Num momento em que o capitalismo mundial anseia por novos mercados que sustentem o crescimento dos negócios e a geração de mais riqueza, enxergar a evolução da sociedade e o novo papel econômico da metade mais sensível da população global parece ser um movimento mandatório.
Extraído de: http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0968/economia/maior-mercados-emergentes-558756.html?page=full
Portal Exame/economia
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